Paulo Sousa: “O sitar permite-me ser muito genuíno e transparente naquilo que faço”

25/05/2009

Paulo Sousa (c) Mário Pires

Paulo Sousa (c) Mário Pires

A música indiana é representada no FMM 2009 através do grande Debashish Bhattasharya, mas também através de um músico português surpreendente. Em entrevista ao FMM, o ex-Essa Entente Paulo Sousa fala do percurso que levou a apaixonar-se pelo sitar.

FMM Sines - O que recorda da experiência do grupo Essa Entente, de que foi co-fundador?

Paulo Sousa - Os Essa Entente representam para mim uma memória longínqua de algo que foi muito bom na época em que se inseriu. A sua fundação foi há 26 anos. Já lá vão uns aninhos. Éramos bem diferentes do que somos hoje. Éramos um tanto incompetentes e inconsequentes, mas divertimo-nos muito. O espírito da banda era muito boémio e nunca nos preocupávamos muito com o que quer que fosse. Quando isso mudou, a banda acabou. Os Essa Entente fizeram-me crescer à custa também de alguns erros que cometi. Fez-me crescer como músico, ganhei experiência, aprendi como funcionam as coisas.

Em que momento começa a interessar-se pela música indiana e pelo sitar em particular?

Comecei a interessar-me pela música indiana quando já estava no Conservatório a fazer Guitarra Clássica. Aí vieram as minhas curiosidades e inquietações espirituais. Cruzando o meu lado guitarrista a tudo isto levou-me a comprar um sitar e a iniciar as minhas idas à Índia. A partir daí, as guitarras começaram a ficar no armário, pois o sitar seduzia-me muito mais. Estava sempre a chamar-me.

O que é que este instrumento, e a tradição musical de que faz parte, lhe oferece, ou lhe permite fazer de diferente da música ocidental?

Acho a Música Clássica Indiana muito inteligente, pelas soluções formais que apresenta, permite unir em palco músicos que apenas se conhecem nos bastidores e minutos depois estão a actuar para uma audiência. O sitar permite-me ser muito genuíno e transparente naquilo que faço. É como se criasse uma ligação directa entre o sentir imediato e as mãos que me permitem tocar. Isso faz com que cada concerto seja único, pois posso ser autor, maestro e intérprete simultaneamente. É uma música e um instrumento que me permite dar muito de mim, mas para isso também exige muito, pois entendo o sitar como uma espécie de “sacerdócio”. De tão orgânico que é, exige-me uma ligação física intensa também sob o ponto de vista do tempo que despendo nele.

Foi apenas um percurso musical, estritamente estético, ou também um percurso espiritual mais profundo?

Associado ao sitar houve também um percurso espiritual que me levou três vezes à Índia, sendo a última de um ano. Estudei Yoga, pratiquei-o e ensinei-o durante oito anos. Interesso-me por algumas filosofias orientais, nomeadamente o sufismo.

Um português que toca sitar, um indiano que toca guitarra eléctrica. É isso a globalização? É isto a “world music”? Qual é, para si, o significado cultural desta inversão dos estereótipos?

Foi interessante quando cheguei à Índia para estudar sitar e deparar com jovens indianos que queriam que eu lhes ensinasse alguns riffs de canções do mundo pop rRock internacional. Aquelas coisas que todos nós conhecemos. Pensava eu que em cada esquina ia encontrar alguém que tocava sitar. Enganei-me, pois descobri que até sabia muito mais da cultura clássica musical do que pensava. No final da minha estadia houve quem me sugerisse ficar e dar aulas de sitar como forma de ganhar a vida. Este fenómeno é globalização e “world music”, mas também um cruzamento de interesses e motivações distintas. Se a um ocidental lhe é permitido subjectivamente procurar a verdadeira dimensão da música, o seu poder meditativo, a sua elevação, também deve ser permitido a um indiano aceder ao chamamento da música pop que cada vez mais entra na vida indiana não só pelos múltiplos canais de televisão como também pela indústria cinematográfica de Mumbai (Bollywood). Hoje em dia qualquer jovem indiano fica feliz com um bom par de jeans, um bom telemóvel e, se possível tanto melhor, saber tocar guitarra eléctrica.

Do programa do FMM 2009, que outros espectáculos espera ficar para ver?

Devido a limitações de ordem profissional não vou ficar para ver muitos espectáculos, mas de certeza que não vou perder o Debashish Bhattacharya, pois é para mim um dos melhores tocadores de slide guitar. Outro nome é Lee “Scratch” Perry, pois gosto de dub. Confesso a minha ignorância em relação aos restantes nomes estrangeiros.

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{ 2 comentários }

yggdrasil 27/05/2009 às 01:33

Ena Ena, entrevistas aos artistas. Espero que possam conversar com a menina Rupa.

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Leonor Ferreirinho 27/10/2009 às 12:30

Paulo,

Tive saudades e decidi procurar-te. Fiquei feliz por perceber que te encontraste.

Parabéns pelo teu percurso.

Beijos, Leonor

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