César Prata: “A electrónica e as programações permitem uma renovação da música tradicional”

06/06/2009

Assobio ao vivo na Guarda

Assobio ao vivo na Guarda

César Prata, que com Vanda Rodrigues, constitui o recém-formado duo Assobio fala ao Festival Músicas do Mundo do projecto que apresenta no Centro de Artes de Sines, no dia 23 de Julho. Enriquecer a música tradicional portuguesa com o contributo das novas tecnologias é a pedra de toque.

FMM Sines – Assobio nasce pouco tempo depois do fim de Chuchurumel. O que justificou esta mudança de projecto?

César Prata – Os grupos são feitos por pessoas e em todos os grupos há momentos de crise. Uns ultrapassam-se e outros não, dando lugar a rupturas. Foi isso que aconteceu com Chuchurumel: diferentes opções e ritmos de trabalho e formas divergentes de encarar o projecto do ponto de vista artístico ditaram o fim do grupo. Todavia, gostaria de salientar o seguinte: Assobio começou a trabalhar em Dezembro de 2008 e Chuchurumel apenas terminou em Janeiro de 2009. Não se verificou, portanto, qualquer nexo de causalidade entre o fim de Chuchurumel e o início de Assobio. Em rigor, o início de Assobio aconteceu quando da minha participação e da Vanda Rodrigues no espectáculo “Guarda: rádio, memória”, uma produção do Teatro Municipal da Guarda apresentada em finais de Novembro de 2008. Foi aí que decidimos que iríamos trabalhar juntos.

Quando se começou a interessar pelo cruzamento entre a música tradicional e a electrónica? Quais são os ganhos expressivos desta opção?

Este interesse remonta a 2003, quando trabalhei no meu CD “Canções do Ceguinho”. Foi aí que comecei a descobrir as potencialidades infinitas dos computadores como produtores de sons.

A electrónica e as programações permitem uma renovação da música tradicional e permitem dar-lhe vida. Considero que a repetição pura e simples mata a tradição. Eu disponho de computadores, processadores digitais e outras máquinas. Não tenho só instrumentos acústicos e rudimentares construídos com materiais que a natureza proporciona. Assim, no meu tempo, quero usar os recursos de que disponho. A exploração alargada de sonoridades é algo que me interessa muito. A multiplicidade de sons produzidos por computador permite-me também fabricar os meus próprios sons.

A estreia de Assobio decorreu há algumas semanas na Guarda. Conte-nos como foi.

A Guarda é a minha cidade. Por isso, foi magnífico poder estrear na Guarda. Foi um espectáculo muito bonito, dizem. O facto de Assobio ser uma co-produção com o Teatro Municipal da Guarda colocou à nossa disposição uma excelente equipa de técnicos (som, luz, comunicação, design) e enriqueceu bastante este projecto. A encenação do Américo Rodrigues, simples mas muito consistente e bela, também deu o seu contributo.

E Sines, o que pode esperar do espectáculo do Assobio?

Num palco ocupado por um músico e uma cantora vamos mostrar todo o disco. O FMM de Sines é uma instituição. Fazer parte da sua programação apenas dois meses após a edição do nosso primeiro disco é um privilégio e uma excelente oportunidade para mostrarmos o nosso trabalho. Esperamos também, naturalmente, um bom acolhimento por parte do público.

Mesmo que não tenha possibilidade de os ver, que outros projectos do FMM gostaria de sugerir aos espectadores do festival?

Uma pergunta complicada, pois toda a programação é excelente. No mesmo dia de Assobio, logo a seguir, aconselho o público a assistir ao magnífico espectáculo de Narf e Manecas Costa (eu tive o privilégio de os ver em Agosto do ano passado, em Maputo). Outras sugestões: Rupa & The April Fishes (EUA), Orquesta Típica Fernández Fierro (Argentina), Alamaailman Vasarat (Finlândia), Dele Sosimi Afrobeat Orchestra (Nigéria/Reino Unido) e, claro, Janita Salomé.

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